CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO Pequeno comentário sobre a ordenação ao Sumo Bem em Plotino e Santo Agostinho.
Santo Agostinho tem a sua obra Confissões apoiada em uma premissa: a de que existe um Sumo Bem e que tudo que há deve se ordenar a Ele. Essa não é uma ideia apenas de Agostinho; Plotino, ainda no século III, já afirmava essa necessidade das criaturas em se voltar ao Bem. Contudo, é em Agostinho que o Sumo Bem é identificado de maneira mais profunda com o Deus cristão. Ele abandona a visão impessoal do Uno em Plotino e o substitui por uma divindade tão pessoal que assumiu a natureza humana.
Assim, rejeita a concepção de imanência plotiniana — segundo a qual as criaturas se formam por emanação do Uno de modo involuntário e impessoal — e defende, em seu lugar, uma relação pessoal da criação com a Santíssima Trindade, que cria o mundo por sua vontade livre e totalmente do nada (ex nihilo).
Todavia, não rejeita completamente a posição de Plotino de como os seres devem se posicionar perante essa causa primeira. Para ele, o pecado e a imoralidade se dão na desordem dos seres criados em relação aos bens e, sobretudo, ao Bem absoluto, que é o próprio Deus. Ninguém quer o mal pelo mal; mesmo os sádicos e homicidas procuram, no mal, um bem, mesmo que seja a satisfação dos seus próprios desejos.
O conceito de Plotino do mal como uma privação das formas - e, portanto, do Bem - é também desenvolvido e sistematizado por Santo Agostinho na obra Confissões e em outras das suas obras, por exemplo, no livro Sobre o Livre-Arbítrio, no qual ele afirma: “Toda natureza que pode tornar-se menos boa, todavia, é boa.” Negando, portanto, a existência de uma corrupção absoluta do ser — pois isso significaria a própria inexistência do ser corrompido — com isso, contraria diretamente a visão dualista da doutrina maniqueísta da qual fez parte antes de sua conversão, que tinha no mal uma substância tão real quanto o bem.
Outro ponto de divergência entre a posição de Agostinho e Plotino é em relação ao conhecimento do Deus/Uno. Para Plotino, o conhecimento do Uno se dá pela apreciação do Bem e do Belo. As coisas como tem origem no Uno, são reflexos daquele do qual foram emanadas e, sendo o Uno transcendente e impessoal, é alcançado apenas pelo conhecimento dessas realidades que dele emanam e pela união mística que se dá quando o espírito abandona toda a multiplicidade e o apego ao sensível. Santo Agostinho, por outro lado, defende a possibilidade de conhecer a Deus tanto por meio das coisas criadas quanto de maneira pessoal e íntima, por meio da revelação divina, que se dá plenamente em Cristo e na ação do Espírito Santo. Para Agostinho, há no homem uma inquietação tão profunda que a simples contemplação natural de Deus por meio da criação não poderia saciá-la.
Aqui entramos em um conceito que será mais desenvolvido em Santo Tomás de Aquino: a dupla beatitude do homem. Uma delas é a beatitude natural, voltada para o conhecimento e contemplação de Deus por meio da criação — limitada à capacidade natural do homem, cujo ápice é a metafísica. A segunda é sobrenatural, alcançada apenas pela contemplação e conhecimento de Deus em Si mesmo, possível unicamente quando Ele se revela, realidade estudada na Teologia.
Em última análise, tanto Plotino quanto Agostinho reconhecem a mesma necessidade e procuram respostas que apontem para sua plena saciedade. Porém, enquanto Plotino vislumbra essa plenitude na união mística com o Uno de maneira impessoal, Agostinho percebe que, ao buscar nas coisas criadas essa satisfação, apenas aumentava sua sede. Não a encontrou na natureza, nas amizades, nas mulheres ou na arte; nem mesmo a filosofia foi capaz de saciar a inquietação do seu coração. O repouso que buscava, enfim, encontrou numa Pessoa: Jesus Cristo. Rendendo-se à impossibilidade de alcançar o infinito pelas próprias forças, deixou-se por Ele ser alcançado.

