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Ouça o Lógos Heraclítico

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No abismo onde todos ladram, o filósofo se lança




Os cães ladram àquilo que não conhecem. Quando pressentem a presença de um estranho, erguem o pescoço, mostram os dentes, latem — por instinto, por medo, por fidelidade à ordem conhecida. Essa é sua natureza: ser guardião, vigia, defensor do que já é familiar.

Mas não deve ser essa a natureza do filósofo.

O homem, em sua vocação mais alta, deve aprender a não ladrar ao desconhecido, mas antes a acolhê-lo com esperança. Aquilo que é estranho à sua razão não é inimigo — é convite. O homem que busca, que crê, que espera, deve abandonar a repulsa ao que se oculta nas sombras.

O desconhecido é como o fundo de um oceano tempestuoso: as águas são escuras, os perigos, inumeráveis, e o medo é legítimo —mas apenas ali, nas profundezas insondadas, residem os tesouros que ninguém vê, os novos mundos ainda por descobrir, as verdades que não cabem na superfície tranquila do sabido.

Quem é filósofo de verdade, quem é amigo da sabedoria, deve enfrentar a hostilidade com que o desconhecido sempre se defende — e mesmo assim, abraçar a possibilidade.

Enfrentar o desconhecido é o gesto inaugural do filósofo, não fugir do que escapa à evidência, nem se abrigar nas palavras gastas, mas seguir, nu, em direção àquilo que resiste ao nome, que não se deixa conter pelo enquadramento das ideias já estabelecidas. É aceitar o risco do pensamento: sem garantias, sem dogmas, sem a rede segura das receitas prontas. É expor-se — abrir-se à possibilidade de que o que se busca não caiba nas categorias disponíveis, e que, ao tocar o outro lado, não se volte o mesmo, pois quem enfrenta o desconhecido não regressa intacto: transforma-se.

O homem comum se contenta com o que já conhece, com o que a luz já revelou; mas não se dá conta de que existem luzes mais altas, mais intensas, cintilando nas penumbras, esperando apenas a coragem de quem se dispõe a desbravar a escuridão e desfrutar do brilho glorioso que só os audazes podem ver. Filosofar é, antes de tudo, este salto — não sobre o abismo escuro, mas para dentro dele.

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Jarival Barbosa
Jarival Barbosa
Aug 17, 2025

O espanto é o convite à filosofia. O novo, o estranho nos leva ao questionamento.

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