O comum é a face humana do divino

O saber que se isola em si, ainda que vasto, é fragmento sem costura, é verbo solitário que não ressoa no coro do mundo.
Há na verdadeira sabedoria um sopro de comunhão — uma escuta profunda daquilo que está para além do eu.
Heráclito sussurra aos que têm ouvidos: “os que falam com inteligência devem fortalecer-se no comum” — pois a inteligência não se ergue sobre originalidades privadas, mas sobre a partilha de um daquilo que não é propriedade de ninguém.
Esse Lógos — ao mesmo tempo comum e divino — não é um deus que governa do alto, mas a ordem viva que vibra nas entranhas do cosmos.
Está em tudo, como fogo que não se vê, mas que aquece a razão das coisas.
É divino, porque nenhum ser o detém. Comum, porque todos os seres o respiram.
E como divino nutre todas as leis humanas. Nutrição esta que se fortalece com esforço do reconhecimento.
A lei eterna não se impõe, convida. Está no fundo das coisas como medida invisível. O filósofo não a possui, mas constantemente busca sintonizar-se com ela, despojando-se de pensamentos autocentrados, atentos à harmonia maior.
A buscar pelo Lógos tornar-se dessa forma permeável, curvando a alma não à autoridade dos homens, mas ao rumor do comum que sussurra em todas as coisas, aceitando que o divino não se encontra apenas fora do mundo, mas no centro oculto daquilo que também é simples e está bem aqui.

