A verdade é relativa ou concreta?
"Por método, entendo regras certas e fáceis que sejam tais que quem as observar exatamente não há de jamais supor nada falso como verdadeiro e, sem consumir inutilmente nenhum esforço da mente, mas aumentando sempre gradualmente a ciência, alcançará o verdadeiro conhecimento de tudo aquilo de que for capaz".
DESCARTES, R. Regras para a direção do espírito. Tradução de J. Gama. Lisboa: Edições 70, 1985. (Coleção Textos Filosóficos).
Acredito que a verdade só pode ser verdade se ela for concretamente o que o é, do contrário, e partindo-se de uma visão relativista (o que poderia explicar o porquê de tantos conflitos, preconceitos e intolerâncias). Pois cada mente dotada de um certo grau de relativismo com relação a uma "verdade" se encontrar perdida na busca daquilo que Descartes vai afirmar ser um esforço inútil na busca da falsa verdade.


A questão central é: como definir aquilo que é concreto? Para mim, até o próprio Descartes escorrega nessa casca de banana filosófica. No livro, ele afirma que descobriu uma proposição absolutamente verdadeira (o cogito) e, a partir disso, conclui que tudo aquilo que concebemos de modo claro e distinto deve ser verdadeiro. Contudo, quando analisamos esse critério com atenção, percebemos que ele se reduz, no limite, à sensação subjetiva de clareza. Ou seja, depois de toda a busca cartesiana por fundamentos seguros, o critério final da verdade acaba parecendo nada mais do que um “eu acho que é”.
Por isso, adotei, ainda que de maneira deturpada, um preceito próximo ao “homo mensura” sofista. Não busco a verdade em si, essa verdade ideal, universal e concreta. Em vez disso, busco aquilo que, segundo a minha régua, interpreto como verdade. E faço isso tendo plena consciência, desde o início, de que posso estar (como normalmente estou) errado.