A verdade é relativa ou concreta?
"Por método, entendo regras certas e fáceis que sejam tais que quem as observar exatamente não há de jamais supor nada falso como verdadeiro e, sem consumir inutilmente nenhum esforço da mente, mas aumentando sempre gradualmente a ciência, alcançará o verdadeiro conhecimento de tudo aquilo de que for capaz".
DESCARTES, R. Regras para a direção do espírito. Tradução de J. Gama. Lisboa: Edições 70, 1985. (Coleção Textos Filosóficos).
Acredito que a verdade só pode ser verdade se ela for concretamente o que o é, do contrário, e partindo-se de uma visão relativista (o que poderia explicar o porquê de tantos conflitos, preconceitos e intolerâncias). Pois cada mente dotada de um certo grau de relativismo com relação a uma "verdade" se encontrar perdida na busca daquilo que Descartes vai afirmar ser um esforço inútil na busca da falsa verdade.


Boa noite! Ângelo, você está cometendo um erro básico: tirar conclusões metafísicas de um método científico cartesiano que somente pode ser aplicado a fenômenos físicos!
Embora o método cartesiano seja extremamente eficaz para o estudo da realidade física, ele revela sérias limitações quando aplicado às questões metafísicas, como Deus, o bem, o belo e o verdadeiro.
O método cartesiano funda-se na evidência clara e distinta, na análise, na síntese e na enumeração completa dos elementos do conhecimento. Essas regras pressupõem que o objeto investigado seja mensurável, divisível, quantificável e acessível à razão discursiva. É exatamente por isso que o método se mostra adequado às ciências naturais: o mundo físico pode ser observado, medido, experimentado e descrito matematicamente. Fenômenos naturais obedecem a leis regulares e repetíveis, o que permite a verificação empírica e a correção dos erros.
Entretanto, as realidades metafísicas não compartilham dessas características. Deus, por exemplo, não é um objeto sensível nem uma realidade mensurável; o bem e o belo não se reduzem a propriedades físicas; e a própria verdade, em seu sentido mais profundo, não é um dado empírico, mas uma adequação do intelecto ao ser (adaequatio intellectus et rei, segundo a tradição clássica).
Aplicar o método cartesiano a essas realidades é cometer um erro de categoria: exigir demonstrações do tipo físico-matemático de realidades que pertencem a uma ordem superior do ser.
Além disso, o método cartesiano opera por dúvida metódica, suspendendo o assentimento a tudo aquilo que não se apresenta com clareza absoluta. Tal procedimento é útil na investigação científica, mas torna-se problemático na metafísica, pois muitas verdades fundamentais não são evidentes por análise racional imediata, mas conhecidas por participação, intuição intelectual, experiência moral ou revelação. O bem, por exemplo, não é conhecido apenas por definição, mas pela inclinação natural da vontade; o belo é apreendido por uma experiência contemplativa; Deus é conhecido por analogia e não por demonstração direta.
Portanto, o argumento de Descartes sobre o método como instrumento para alcançar a verdade é válido e fecundo no domínio das ciências físicas, onde o objeto é proporcional ao método. Contudo, ele se mostra inadequado para as questões metafísicas, que exigem outros caminhos do conhecimento: a razão filosófica especulativa, a analogia do ser, a experiência moral e, no caso da teologia, a fé iluminada pela razão!
Reduzir todas as formas de verdade a um único método é empobrecer a própria razão humana, que é capaz de conhecer não apenas o que se mede, mas também o que dá sentido ao existir.