A Tríade de Conexões das Ideias e Pensamentos em Hume

David Hume, em sua Investigação sobre o Entendimento Humano, propôs uma tese que se tornaria um dos pilares de seu empirismo psicológico: toda a arquitetura do pensamento humano se constrói sobre apenas três princípios de conexão entre as ideias — semelhança (similarity), contiguidade no tempo ou no espaço (contiguity in time or place) e causa ou efeito (cause or effect).
A semelhança (similarity) é o princípio que nos faz associar imagens ou conceitos parecidos. Se vemos um retrato, pensamos imediatamente na pessoa retratada; se vemos nuvens em formas curiosas, lembramos de animais ou objetos. A mente busca padrões, reconhece rostos, identifica analogias. É um princípio que está na base da imaginação artística e também do pensamento científico, que se orienta por analogias.
A contiguidade no tempo ou no espaço (contiguity in time or place) é a força que nos faz associar coisas que ocorrem ou existem próximas no espaço ou no tempo. Se vemos um livro sobre a mesa, podemos lembrar da xícara que sempre repousa ao lado dele. Ou ao sentir o cheiro de canela, recordamos do Natal. Ver areia faz lembrar o mar. Olhar para a porta faz lembrar a maçaneta. A palavra “Revolução Francesa” faz lembrar da guilhotina. É o princípio que organiza nossas memórias episódicas e cria o senso de continuidade da vida cotidiana.
A relação de causa ou efeito (cause or effect) é, para Hume, o mais importante e o mais problemático dos três princípios. Ele sustenta que a mente cria a ideia de causalidade não porque veja alguma conexão necessária entre os eventos, mas porque se habitua a ver certas coisas sempre seguindo-se umas às outras. Se sempre que vemos nuvens escuras vem a chuva, passamos a associar nuvens e chuva como causa e efeito. Ao ver alguém riscando um fósforo, imediatamente lembramos da chama. Se pensarmos na ferida, refletimos na dor que a sucede.
Mas hume defende que essa necessidade não está nos objetos: é apenas um costume psicológico.
Para Hume, essa enumeração de três princípios é completa. Ele acredita que todo tipo de associação mental pode, em última análise, ser explicado por um desses vínculos básicos. Não haveria, segundo ele, um quarto princípio fundamental.
No entanto, há críticas possíveis a essa redução tripla. Vários filósofos e psicólogos posteriores se perguntaram se essa lista é mesmo exaustiva. Será que todas as conexões mentais humanas se reduzem apenas a semelhança, contiguidade ou causalidade?
Além disso, a psicologia cognitiva moderna sugere outras formas de associação, como aquelas mediadas por emoções, valores, narrativas culturais ou pela semântica da linguagem, que nem sempre se explicam só por similarity, contiguity ou cause or effect.
Mesmo assim, a análise de Hume permanece extraordinariamente influente. Sua genialidade foi perceber que a mente humana não raciocina de maneira arbitrária: nossos pensamentos seguem laços associativos que possuem regularidade e previsibilidade. Essa descoberta abriu as portas tanto para a psicologia moderna quanto para a crítica filosófica do racionalismo.
O que Hume talvez não pudesse antecipar é a complexidade crescente que a ciência cognitiva viria a revelar sobre o cérebro humano. Se hoje sabemos que a mente cria redes associativas que incluem valores, contextos sociais, linguagens simbólicas, é porque, em parte, Hume nos ensinou a buscar explicações empíricas para a maneira como pensamos.

