Eu estava lendo o Isagoge e fiquei com uma dúvida, Porfírio diz que o próprio é predicado da espécie e não da diferença, desta maneira afirmamos que "capaz de rir" por exemplo, é algo próprio da espécie homem (animal racional mortal), e não da diferença racional. Além disso, ele diz que o próprio é próprio apenas da espécie de que lhe é próprio, de maneira que não poderia ser próprio de espécies diferentes, pois assim como o próprio é predicado da espécie ele diz que a espécie também é predicada do próprio, de maneira que se víssemos um ser capaz de rir poderíamos dizer que é homem, logo (dentro desse paradigma) Deus que não é homem seria capaz de rir? Essa questão seria facilmente respondida se estivéssemos falando do Deus Cristão que não é um animal (corpo animado, aqui não falo de Cristo encarnado), mas na definição de Porfírio Deus é animal racional imortal.
Além disso, essa mesma definição dele de Deus como um animal racional imortal não me ficou claro, ele está concebendo um Deus, nos moldes dos deuses gregos como Zeus? Pois somente assim a sua afirmação faz sentido, mas mesmo assim fica confuso o fato desse Deus não ser capaz de rir sendo um animal racional (mesmo que imortal). De fato nos poemas homéricos vemos que os deuses são capazes de tudo aquilo que os homens são e ainda mais. Por outro lado, se "Deus" de Porfírio for capaz de rir ou outras propriedades propriamente humanas, então o próprio não decorre necessariamente da espécie mas sim da diferença que especifica o gênero. Se for assim, o próprio continua predicando a espécie mas a espécie não necessariamente predicaria o próprio.


Como você disse no início, o próprio se refere à espécie, e não à diferença. "Capaz de rir" é próprio do homem, e, portanto, somente do homem, por isso lhe é próprio. Veja que Deus, apesar de ser racional, assim como o homem, não é mortal, logo, não são da mesma espécie. Assim, só se pode predicar "capaz de rir" daquilo que é animal racional mortal, logo, homem; e consequentemente, pode-se predicar do homem o "capaz de rir".
Observe também que, assim como o acidente, não necessariamente há um único próprio por espécie. No caso do homem, além do "capaz de rir", também lhe é próprio o "capaz de filosofar" (Deus, por já possuir todas as verdades, não precisa filosofar para conhecê-las, assim como não precisa se mover para estar em algum lugar, pois já está em todos os lugares).
Em suma, o "capaz de rir", por ser próprio do homem, somente deste pode ser predicado, pois quando se tem o próprio de alguma espécie, somente aquela espécie faz ou é capaz de fazer aquilo que lhe é próprio.